quarta-feira, 14 de março de 2018

O corpo
Oco
Casca seca
Sobre nada
Nada
Que seja mais
Que ainda pouco

O corpo
Casca
Já desfeita
Sobre o oco
Corpo
E do que sobra
Já nem pouco

Agora oco
E nada sobre
Senão a lâmina
De um sol de cobre

Reduz-se o corpo
A uma lágrima
Até que suma
E nada sobre


(Mateus Borba)

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Eu estou cansado

Deve ser a idade
O tempo 
Ou esse vento atravessado

Sei lá

Talvez o exercício pesado
Que é existir

Talvez seja a noite
Essa lua meio embriagada
Que despencou de repente
Ou a maré baixa que não quebra ondas
Um suspiro desavisado
De quem não sabe de nada

Eu suspiro
E não sei de nada
Nem de maré, nem de vento

Eu sigo, e só isso:
Não tento

Da intenção, sou espuma
Do plano, o que se desarruma
Da estrada, porteira fechada

Explícito
Mau tempo
Sobre coisas
Inacabadas


(Mateus Borba)

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Saudade Sem Saída


Primeira parceria com meu Parceiro de coração Luisão Pereira. A original é de 2005, acho, e foi lançada num disco solo dele. Essa é a versão 2016.

SAUDADE SEM SAÍDA
(Luisão Pereira/Mateus Borba)

Já não falamos de tensão
Desarme os olhos
Se já não há nada a fazer
Desate as mãos

E o que vai sobrar de você?

Saudade sem medida
Insisto em trilhas de nunca mais
Um revés, um talvez, um clichê
Parte do adeus que vai ficar
Do que já não cabe entender

E o que vai ficar de mim?
Tempestade nuns olhos perdidos
E uma confusão de palavras
Tristes como em qualquer fim

Metade a se desmanchar
E outra teimando em partir

Saudade sem saída
Invento cenas pra nunca mais
E tanto faz um revés, um clichê
Ou até...
Parte do adeus que vai ficar
Do Amor que já não cabe mais

E quem de nós
Vai entender
Ou desbotar a cor
Calar o coração
E esquecer?


sábado, 6 de agosto de 2016

Na varanda
Eu escrevo e fumo
Aqui eu sinto o tempo
E ouço a respiração da Terra

Na varanda, eu bebo
Mais uma cerveja enquanto fumo
E fumo enquanto escrevo

Aqui
A madrugada é mais madrugada
E é nela que me sinto inteiro -
Eu sou da madrugada

Daqui ouço o galo
Que canta fora do horário
(Hoje ele nem cantou)

Na varanda, agora
Tenho que ter cuidado
Ando com pés mansos
Nas pontas dos cascos

É que, no xaxim de sempre
O mesmo velho passarinho
Voltou para fazer ninho
Como sempre fez

Cuido para não acordar
O passarinho que não fuma
Nem vê que a madrugada
É mais madrugada agora

Eu escrevo o que me cabe

O passarinho tem outras histórias


(Mateus Borba)
Essa coisa
Que me extrapola
Não é poesia
Seria
Se desse um samba
Do Cartola

Essa coisa
É coisa à toa
Mero bedelho
Não vale
Nem pra uma orelha
Do Paulo Coelho


(Mateus Borba)
Diante disso tudo
Entro calado
E saio mudo


(Mateus Borba)

segunda-feira, 11 de julho de 2016

A vida era calma, agora
Surpresa suspensa
Mão leve de guardar passarinho
Feito o nada de antes de um suspiro

E eu desconfiava
Porque, como noite anuncia dia
Calma muita predizia estrago

Eu cuidava pra ser feliz
Mas sustentava no peito
Um prenúncio pro assombro

Era feliz, mas com cuidado
Já que rir tinha sempre
Um pedaço de falta

Meu riso era assim:
Mais de querer que fosse
Que acreditar que seria


(Mateus Borba)