quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A casa cheirava à lembrança atiçada. Tudo parecia recender saudade: o quadro desajeitado que vigiava a sala, as poltronas desbotadas onde já não se sentava, a porta da frente, que já não se via abrir. Havia uma ausência presente, agarrada à alma daquelas primeiras horas da manhã. Por um momento achou que seria possível, mas não chegou a tanto: há muito havia esquecido como permitir que aquela coisa qualquer, que sobe agitando o estômago e esquentando o peito, se estampasse como um sorriso nos lábios. Mas não sabia como fugir da saudade, a saudade que aponta nos ombros, que embarga os suspiros, que queima em voltas e mais voltas dentro da gente, se sabendo irremediável.

Buscou em uma das gavetas da cômoda seu antigo álbum de fotografias. A capa, enrugada e destratada pelos anos, nada denunciava do que havia naquelas páginas - fragmentos de uma suavidade que, em certo tempo, lhe pertenceu, ou mais ainda: foi ela. Abriu o livro, afastando lentamente o tecido fino que separa o presente do passado. Suas mãos mantinham a serenidade dos que sabem estar caminhando rumo a uma espécie de redenção, contrariando seu desejo urgente de tomar aquelas imagens para si, para o que hoje era sua vida, tornando outra vez real o que já não passava de memórias.

Passeou os olhos secos entre os rostos que um dia lhe foram próximos. Bebeu de um passado já amarelado, mas com um brilho que ainda lhe parecia novo. Era sempre novo para ela, que estava há anos e anos de distância daqueles dias. Era sempre como assistir pela primeira vez a uma vida que não era a sua. Mas era. Foi.

Trazia à boca as cinzas daqueles dias em que a felicidade era uma certeza clara e gratificante, quase uma permissão física pra andar com os pés descolados do chão. Sabia que era preciso deixar aquele tempo voltar, como volta e meia acontecia, para passear em seus sentidos, bagunçar um tanto suas convicções e depois ir embora, deixando apenas seus olhos vagos e o vazio ao qual havia se acostumado.

A cada detalhe de fotografia que capturava, um elemento ressurgia em seu pensamento, remontando, lentamente, aquela antiga realidade para onde ia sendo transportada aos poucos, quase escorrendo, fluida. De repente, havia de novo aquele mundo. Havia de maneira intocável e intocada: tudo exatamente como foi, renascido e tomando espaço sobre o terreno úmido da saudade. O cheiro daqueles dias inundava seus sentidos, e podia até mesmo sentir o calor suave do sol que iluminou aquelas alegrias - o mesmo sol que, hoje, quase já não via e que, mantendo as janelas grossas e pesadas constantemente trancadas, ela impedia que varresse as sombras da sua casa, assim como as suas sombras.

Surpresa, percebeu que seus olhos se enchiam e escorriam, banhando um tanto aquelas páginas. Sentiu como se suas lágrimas fossem uma ligação entre a pessoa que foi e a que se tornou, um ponto onde dois tempos distantes se encontravam, como se, através delas, se estendesse aos seus pés um caminho que fosse possível trilhar de volta. Lembrou, com uma alegria costurada de tristezas, que ainda era capaz de se emocionar, mesmo que, para isso, precisasse recorrer às imagens do que perdeu e aprendeu a viver sem, não por ter, mais tarde, renovado o sorriso ou encontrado novos amores, mas por ter a vida se transformado em uma ordem.

- A vida é um desfazer de instantes, um fluxo contínuo do qual nada se retém, somente as lembranças. Mas estas, algumas vezes, não resistem ao tempo: são encobertas pelos instantes seguintes que a vida traz, bons ou não, em seu movimento incansável, pensou enquanto fechava seu álbum e se dava conta de que já escurecia. E considerou a possibilidade de, um dia, abrir novamente as janelas, mesmo que fosse para deixar o sol secar de uma vez por todas suas poucas lembranças do que é felicidade.


(Mateus Borba)

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